
Tenho andado pela Provence esses dias, como aqui andei há mais de 25 anos. Naquele tempo o meu olhar era menos critico (porém observador) e mais receptivo. Eu, o personagem, me deslumbrava com facilidade com a história, a gastronomia, a limpeza, a civilidade, a arquitetura fresca, nova dos então também novos e arrojadíssimos edifícios da era Miterrand.
Confesso que a história ainda me emociona, a paisagem me surpreende, mas nem tanto a gastronomia (salvo honrosas exceções), a limpeza pública ou a arquitetura contemporânea que não procurei, mas também não encontrei por essas “bandas”.
O que faz então ser o meu país, gigante adormecido, tão aquém da França com relação a turismo, desenvolvimento humano, cultura e educação? A resposta é transparente, insípida, inodora: a água!
Basta observar como os cidadãos de comunidades desenvolvidas “reverenciam” seus mares, rios, cachoeiras, lagos, etc... Estava ontem numa pequena e charmosa cidade provençal, L’Isle Sur la Sorgue, cujo rio serpenteia suas águas no pequeno centro histórico. Restaurantes e bares se debruçam sobre ele e, pequenos quintais de várias casas que dão acesso às suas águas cristalinas - apesar do intenso calor de julho - não permitem que ele, o rio, seja tocado. Sua transparência revela pedras, peixes, algas.
Um pouco menos transparente, muito volumoso e também limpíssimo é o Rhone que circula a Avignon “papal”.
Senti pena, pois nunca poderei ver o Tiete tão formoso, respeitado e querido. Meu pai nadou nele, eu o desprezei e meus netos provavelmente não o conhecerão.

Aluguei uma casa por 15 dias em Saint Paul de Vence. São duas vilas com centros históricos medievais distintos e nomes parecidos: Vence e Saint Paul de Vence.
Saint Paul é ainda mais charmosa. É onde está a fundação Maeght, que (re) visitarei em breve.
Vence é um pouco, digamos, mais popular e maior. Nas redondezas de Vence está a “Chapelle Du Rosaire”, mais conhecida como capela Matisse. Matisse tinha idade avançada especialmente para os padrões da época (77 anos) quando, em 1942, fez os primeiros esboços da capela que seria concluída em 1951. Para o artista esse trabalho foi a síntese de uma longa vida de trabalho, dificuldades e esforço. Quando cheguei a esse espaço me surpreendi com a simplicidade monástica que se transforma em uma sensação de paz, talvez pelo equilíbrio entre os traços simples e precisos dos desenhos e a complexidade cromática dos vitrais.
Tenho a opinião que a arquitetura imita a arte quando busca a síntese.

O mundo é azul! ... E rosa em Monte Carlo! É a maior concentração de milionários, Lamborghinis e iates transatlânticos. Serão russos, árabes ou chineses?
No museu oceanográfico de Mônaco, que foi dirigido durante cerca de 30 anos por ninguém menos do que Jacques Cousteau, está acontecendo uma exposição bizarra do espertíssimo inglês Damien Hirst. O lugar é super adequado uma vez que o artista, cujo trabalho em leilão já chegou a mais de oito dígitos, vive embalsamando, serrando e expondo vísceras de animais entre carneiros e tubarões que lá estavam exibindo a arcada dentaria.
Não aprovo e nem admiro o rapaz... Por esses lados ainda prefiro (re)ver os clássicos: Picasso, Renoir, Matisse e Giacometti. Mas o charme de Monte Carlo é o charme do inatingível, dos senhores bronzeados e muito bem de vida, do barulho dos motores, da vida mundana, rica e talvez feliz.

Quantos anos se passaram desde que estive em Antibes; 20, 25 anos? Alguma coisa por ai... Como a memória é curiosa; achamos que nos lembramos e que conhecemos, mas o que temos de fato são frações de imagens, de lembranças, que como num <patchwork>, as costuramos como retalhos de tecido e condizem muito pouco com a realidade. Voltei ontem a Antibes. O que me lembrava era de uma cidade antiga e do museu Grimaldi ou, atualmente, Picasso.
Picasso usou esse incrível espaço, que foi residência dos Grimaldi entre 1385 e 1608, em 1946 durante dois meses, entre setembro e novembro com sua então mulher Françoise Gilot, autora da mais contundente biografia do artista que, prolífico, criou quase uma centena de obras, entre óleos, desenhos e cerâmicas produzidas na vizinha Vallauris. As obras desse período têm leveza e luz de quem experimentava a felicidade de uma Europa recém liberta.

Pirenópolis foi um arraial criado no início do século 18. Para falar a verdade, nada ou pouco sabia quando lá aportei no último fim de semana. Sabia que era destino certo de Goianos no fim de semana, que parecia Búzios ou Campos de Jordão, enfim uma mistura insólita dessas. Mas nada disso; é uma cidade Colonial com muito charme, bem preservada com muito trabalho de tecelagem e que preserva parte da nossa cultura popular em festas como “As Cavalhadas” e a do “Divino Espírito Santo”. Os hotéis e restaurantes - ao contrário do que pregam os guias - são horríveis! Mas vale lembrar, somos brasileiros e precisamos conhecer o País...
Belíssimas são as “namoradeiras” quase que invariavelmente presentes em toda janela Colonial da Cidade. Trouxe uma comigo, é claro!